« Usar a violência para construir um mundo literário »

Entrevista por Diogo Vaz Pinto / Jornal IIMG_5181

A sua aparição no cenário descrito pelo livro é quase uma anomalia, algo que irrompe e é recebido de forma confli- tuosa. Quando o escrevia, que conflito o movia? Quais eram as expectativas e os receios? 

A minha ideia inicial era explorar a violência e as formas de dominação. Queria usar a violência como material para construir um mundo literário. E, de facto, comecei o livro com a cena em que Eddy chega à aldeia. Ele nasceu ali mas… eu não sei porque nasci ali. Desde logo chocam-no o discurso, a forma de falar dos outros, que imediatamente começam a defini-lo como algo de diferente. O que esperava era notar este facto: como a sociedade nos define num ambiente de violência. “És uma mulher”, “és um paneleiro”, “és preto”, “és pobre”. Todas estas categorias, este nível de discurso, molda-nos. Quando publiquei o livro algumas pessoas disseram-me que a sua história era universal. Eu não acredito nessa noção. É uma ideia estranha para mim: pensar o que há de comum entre a minha infância e a de uma miúda chinesa, por exemplo. Mas talvez haja algo que se aproxime dessa ideia, de universalidade, é esta forma de dominação enquanto fundação daquilo que somos. A ideia por trás do livro era expor isto e mostrar como Eddy tenta escapar-lhe, ou lidar com ela.

Há um personagem, Sylvain, que quando deixa a prisão por um fim de semana, diz que não se pode apreciar totalmente a vida sem experimentar os extremos, da amargura ao encanto. Ao progredir para um meio social mais vigiado e educado, em Paris, que aviso lhe fez o seu passado e as suas origens quanto a um modelo de dominação talvez mais subtil mas ainda assim presente? 

Talvez tenha sido o que me levou a escre- ver. Porque quando cheguei a um meio de maior privilégio tive esta estranha impressão, por exemplo, na Universidade. Os outros estudantes – pode parecer arrogante dizê-lo assim – mostravam uma imensa falta de experiência. Para mim chegava a ser muito violento, pois parecia ser impossível entendê-los e ao mesmo tempo fazer-me entender por eles. Penso que foi esta situação, este desconforto, que me deu o desejo de escrever e lutar através da escrita.

Pode dar um exemplo? 

O mais claro exemplo para mim foi a for- ma como as pessoas pensavam a política. O que é a política? Para os privilegiados, para os alunos da ENS, a política parecia tratar-se de uma questão de fraseologia, apenas um tema de debate. Uma questão de ideias numa troca de salão. Esta percepção de que fala Habermas sobre a política, uma ideia encerrada na comunicação. Mas para mim, considerando a minha infância, considerando o meu primo Sylvain, a política não era uma questão de comunicação, mas de vida, do que há para comer esta noite. Quem vai para a cadeia, como foi o meu primo, que continua preso. Foi por causa desta experiência que comecei a pensar desta forma. Quando era miúdo a minha mãe costumava dizer que durante os governos de esquerda havia bife para comer. É uma expressão, mas dei por mim a pensar muito nela. Acabou por gerar em mim um ethos, uma ética. Quando o governo lançou programas sociais durante a minha infância, estes afectaram a vida de todas as pessoas à minha volta. Portanto, e para responder à sua pergunta, a experiência dolorosa que Sylvain tinha permitiu-lhe ter uma profunda consciência do que está em jogo. Não estou a dizer que temos de ser sujeitos ao sofrimento para conceber a vidae vivêla não é o que penso–, mas que temos de tomar em consideração o sofrimento todo que existe à nossa volta, de forma a  construirmos alguma coisa com isso e a aprendermos como podemos sofrer com uma determinada situação. Temos de aprender a sofrer. Como mostra Simone de Beauvoir, que, em “O Segundo Sexo”, explora a condição das mulheres e diz que agora, perante essa consciência, é hora de sofrermos porque se trata de uma condição inaceitável. Porque sofrer significa sujeitarmo-nos a ela e sentir o impulso para mudar as coisas. Eu queria fazer o mes mo com o livro, era um método de acusar a situação em que muitas pessoas vivem, uma forma de sofrimento, e de fazer alguma coisa para mudar isso. À luz do que foi a vida de Eddy Bellegueule, a vida dos pais dele, e dos outros.

Unknown-2

Fala de mudança e parece haver uma importante mudança no livro ao nível até do seu nome. E muitas das personagens que surgem nele não parecem ser personagens no sentido tradicional, mas antes mecanismos para explorar as estruturas e os esquemas da violên- cia. Porque é que o personagem central tem o seu nome de baptismo e porque deu tanta importância a esta questão do nome? 

Porque o nome funciona como um paroxismo deste facto de que somos criados pelos outros. Para mim, quando ouvia Eddy Bellegueule, que era o meu nome, o que ouvia era “pobre”, “paneleiro”. Eddy Bellegueule era um sinónimo de paneleiro, um sinónimo de pobre. É um nome pesado, porque em França as classes média-baixa e baixa dão aos filhos nomes americanos. Eu era Eddy, e os meus primos Brian, Brandon, Kevin, Jefferson etc. E Bellegueule, sabe o que significa? Uma cara bonita. Mas o “gueule” é uma forma muito vulgar de referirse à cara. É calão. Portanto era cheio de significado, fácil de gozar. Para mim esta é a ideia do livro: como Eddy escapou a esta pressão dominadora. Eddy chega a esta aldeia e eles não o querem. Dizem-lhe e fazemno sentir-se diferente. O meu pai dizia que eu era a vergonha da família. Portanto, criar outra identidade passava por criar um novo nome, uma nova significação do que eu era. Penso que tudo o que se reflecte num nome tem reflexo no que somos capazes de fazer, diz-nos também o que os outros nos fizeram a nós.

Qual é a experiência para estes, para os que o viram partir? Até em pessoas próximas como o seu pai, que vivia este conflito em que ao mesmo tempo que dizia haver algo de errado consigo, por outro lado, acreditava que no futuro viria a ser alguém especial, que seria capaz de se libertar e ascender a outra condição. 

É muito complicado, num certo ponto até paradoxal, pois como refere a relação deles ao longo desta trajectória foi conturbada. O pai, como outras personagens, sentem uma certa repulsa pelas diferentes possibilidades daquilo em que podem tornar-se, pelas diferentes possibilidades do que podem expressar. O pai pode dizer “tu és a vergonha da família”, porque era efeminado e tal, e ao mesmo tempo dizer: “Sin- to um grande orgulho por ti. Um dia ainda vais chegar a ministro.” E isto prosseguiu depois de eu ter escapado pois sempre que tentava regressar ao seio familiar era a toda a hora um ambiente muito tenso. Mas era uma violência que se mantinha e que me ultrapassa a mim e a eles. Tudo o que eu dizia era visto como uma violência. Quando eu falava a minha mãe per- guntava-me: “Porque falas dessa forma, queres humilhar-nos?” E eu a falar de forma bastante normal. “Porque te vestes dessa maneira?” Eu vestido como qualquer jovem. Ela dizia-me: “Vestes-te como um burguês. Queres fingir que és superior a nós.” Toda a convivência se tornou impossível. E no sentido inverso também, porque bastava estar dois minutos à conversa com a minha mãe e logo ela vinha com o “Olha-me os árabes, como andam a destruir…”, e eu pedia-lhe, por favor, que não dissesse aquelas coisas, quando sabia o quanto eu odiava aquele discurso. Três minutos depois: “Olha-me as mulheres, agora não passam de putéfias.” A todo o momento este tipo de situações interpunham-se. Ao mesmo tempo, eles mostra vam-se orgulhosos. Quando publiquei o livro, o meu pai comprou 30 cópias, ofereceu a todos os amigos. Costumava recortar os artigos que saíam nos jornais e pen- durava-os pelo apartamento. (Hoje já não está com a minha mãe.) Eu queria mos- trar a complexidade destas pessoas. O que é difícil mostrar é como não conseguem escapar, apesar de haver nelas este conflito. Porque não têm a oportunidade de desejar fugir. Sentem repulsa pelo leque de possibilidades que se abre, a fuga torna-se impossível devido à cultura em que estão imersos e às condições de vida. Não queria passar a imagem de que eu era diferente, de que Eddy era diferente, e contar uma história de sucesso de alguém que fugiu. Quis mostrar que o que se pas- sou foi o oposto. Eles é que me disseram: tu és diferente. Por isso tornaram-me diferente. Aliás, no romance, o Eddy faz tudo o que pode para evitar fugir, para ser exactamente como os outros, para estar em conformidade e ser normal. Foi uma liberdade que ganhei contra mim. É como se tivesse sido libertado por acidente. Porque no início não tinha o desejo de esca- par, tal como todos os outros. Porque a sua condição os firma de pedra e cal nela. O desejo de fugir surge apenas no fim do romance, quando não resta nenhuma escolha senão fugir.

Num artigo do “Nouvel Observateur” , visitaram a sua aldeia, a sua antiga escola, falaram com amigos e membros da sua família, mas o seu não é o primeiro romance autobiográfico. Porque pensa que escolheram esta abordagem? 

Por várias razões. Uma das principais será devido a esta noção tão forte na sociedade, uma percepção das classes mais baixas como sendo “bons selvagens”. É uma percepção que o “Nouvel Observateur” partilha. Que as classes mais pobres são mais autênticas, mais simples, mais fáceis no riso, mais alegres. Para mim isto é uma visão que tem na base uma forma de racismo. Com o livro eu tentei mostrar outra faceta, mostrar como a dominação conduz à violência, como, na verdade, as pessoas sentem repulsa pelas classes mais pobres, e como pessoas que no seu dia-a-dia enfrentam a violência acabam por criar e viver dentro dela. Para o jornalista do “Nouvel Observateur” esta era uma noção insuportável . Preferem a ideia de simplicidade, etc. “Aceita a tua condição, porque a tua vida na verdade é maravilhosa, passas o dia a rir e és tão autêntico. Não sejas como os burgueses, que pa sam a vida num teatro, a interpretar personagens.” Esta foi uma das razões. Outra era que queriam fazer algo popularucho. Aliás, todo o processo foi estranho. Foram ter com a minha mãe e a pergunta que lhe fazem é: a senhora é racista? E claro que a resposta dela é não. E portanto o jornalista escreve que Louis está a men- tir, porque a mãe afinal não é racista. Eu conto no livro que a minha mãe começa muitas das suas frases com “Não sou racista, mas… os pretos roubam todos os nos- sos benefícios”, “Eu não sou homofóbica, mas dois homens enrolados é nojento”, etc. Um dos problemas da violência é esta raramente se assumir como violência, antes disfarçando-se como algo que é sim- plesmente da natureza, que faz parte da vida. A perspectiva deste jornalista formava uma estranha noção da realidade, do que é a verdade, do que é a violência. Depois há coisas que são inaceitáveis mes- mo na prática do jornalismo, como ter feito questão de tirar a minha mãe de casa para a fotografar, fazê-la vestir outras rou- pas que não as que ela tinha vestidas nes-se dia, etc. Sabe que, no início, enviei o manuscrito para várias editoras e a minha intenção era ter fotografias no livro, até porque sou fascinado pelo escritor ale- mão W.G. Sebald – que sempre pôs fotografias nos livros como parte integrante dos seus relatos. Julgo que pode ser um testemunho muito poderoso. E quis usar este processo, mas o meu editor disse-me que isso tornaria o livro muito caro, que seria impossível. Quando vejo o que se tem passado desde então sinto pena, pois julgo que as fotografias teriam emprestado algo mais ao livro, mesmo a nível literário. Ajudando a criar um sentimento de verdade, e tornar evidente que reportagens são falsas, são manipulações.

Referiu-se a Sebald – quando começou a escrever o livro deu por si num momento “Austerlitz”, a descobrir ou conhecer coisas sobre o seu passado que até ali não compreendia? 

Unknown-1

Foi precisamente isso. Foi porque escapei àquela infância, foi porque lhe ganhei distância, porque estava longe dela que tomei consciência do que ela tinha significado. Ao escolher como título “Acabar com Eddy Bellegueule”, o sentido era pôr fim ao meu passado, pôr fim às percepções que Eddy trazia da sua infância. E escrever esta história fez-me entender uma série de coisas que não entendera antes. Por exemplo, a minha mãe dizia-me que tinha abandonado a escola, com 16 anos, porque engravidou e tal. Quando eu era Eddy julgava que isto tinha resultado de uma escolha, que tinha sido uma liberdade sua. Mas por ter ido viver para Paris compreendi que não fora uma esco- lha, mas estava ligado a estruturas de violência, a uma impossibilidade no seu meio e dentro do ambiente escolar, que a expulsou. Foi preciso sair de lá para ter essa perspectiva.

A França tem sido muitas vezes motivo de notícia devido à emergência da extrema-direita, da Frente Nacional (FN). Como foi para si ver um partido destes afirmar-se e crescer? 

É assustador. Na aldeia da minha infância a FN era já muito poderosa. Julgo que mais de 40% dos votos da aldeia lhe davam força. Portanto, era enorme lá. E a minha mãe, por exemplo, muitas vezes hesita- va entre a esquerda e a FN. Para ela não era contraditório. Desde esse tempo vi a FN ganhar peso e o meu sentimento é de terror. Mas é claro que o motivo que os leva a crescer desta forma é o apelo ao voto das classes mais desfavorecidas. Isto acontece porque os restantes partidos não falam delas, destas pessoas invisíveis, excluídas. Curiosamente, quando o partido comunista conquistou 30% dos votos junto destas classes, era comum referir-se ao partido como sendo o da classe do operariado. Agora que a FN tem 45% dos votos desta mesma classe, ninguém lhe chama o partido das classes mais baixas. É evidente que a FN está a crescer desta maneira devido à falta de visibilidade destas pessoas. A minha mãe diz que vota na Marine Le Pen porque mais ninguém está a falar dela, ninguém mais está a falar dos “pequenos”, como ela diz. Neste sentido “Acabar com Eddy Bellegueule” foi um esforço meu para agir, resistir, tentar dar visibilidade, falar deste mundo invisível. Penso que se trata de uma dimensão colectiva, e quer seja a esquerda quer seja a direita não estão a dar-lhe atenção. Assim, do ponto de vista da minha mãe, só resta a Marine Le Pen, que tem falado dela. Se ninguém assumir a responsabilidade de falar des- tes invisíveis, as coisas irão de mal a pior muito depressa. É uma responsabilidade que todos temos, amparar estas pes- soas que se sentem abandonadas, perdidas. Para mim é uma loucura, uma tortura ver a minha família, a minha aldeia dar o seu voto à FN. Mas ao mesmo tempo compreendo-os. É claro que na maio- ria dos casos nem conhecem o programa em que estão a votar, e muitas vezes fazem-no porque são racistas, como mui- tas pessoas na minha família. Mas o que estão é à procura de alguém que ao menos tente falar deles. Portanto, os meios de comunicação que tratam das questões políticas são responsáveis, mas julgo que a literatura também. Quando escrevi este livro sentia que estas palavras estavam ausentes do espaço literário. Nos últimos 20 anos, a literatura francesa parece ter-se tornado num teatro de palavras, um jogo de burgueses, dirigido a burgueses. É uma estranha noção de literatura. Todas estas dimensões são responsáveis pelo que está a passar-se actualmente.

Os media internacionais têm dado bastante a atenção a este recrudescimento da extrema-direita na Europa. Porque o aterroriza que eles se tornem a principal força política em França? O que espera que possa acontecer? 

Porque são racistas, misóginos, homofóbicos, antisemitas. Porque quando analisas o seu programa é arquitectado para os mais privilegiados, e não é de nenhum modo pensado para servir os mais desfavorecidos, para os pobres, como fingem eles. Em França, querem voltar atrás com os impostos mais elevados para as pessoas extremamente ricas, os impostos sobre as fortunas. Boa parte dos seus militantes querem proibir o aborto. Como gay, e um gay que veio da classe baixa, estou duas vezes mais preocupado.

Pensa que será uma autorização à violência para irromper e se assumir plenamente?
Sim. É um programa baseado no ressentimento, no ódio. Parece-me que a política deve ser o oposto disto. Tem de conter o ressentimento na sociedade. Já há muito ódio. O papel do Estado, dos políticos deve ser outro. Um exemplo: quando o Partido Comunista se tornou o partido mais votado em França, isto não significava que o racismo tinha desaparecido, mas que o Partido Comunista se focava noutros problemas. Não dando oportunidade ao racismo de se expressar, retirava-lhe a importância. O processo político deve conter estas pulsões da sociedade. O programa da FN vai no sentido contrário. Em vez de as fazer desaparecer, tenta estabelecer uma plataforma a partir delas.

Publicités

Poster un commentaire

Classé dans Entretiens, Littérature

Les commentaires sont fermés.